13 de nov de 2008




COSTUMES



* J. S. e Albuquerque

A modorrenta Porto Alegre dos anos trinta e nove renascia no remanso das cinco da tarde, no esplendor de suas mulheres e na inquietação que tomava conta da rua da Praia, antecedendo o vespertino desfile sempre renovado, e que dava bolas à imaginação dos homens, na gradação de sua idade, desde o inocente flerte, à glória de poder sentar-se com a namorada para o chá das cinco, pois a raridade do telefone assim o exigia. Na rapaziada prevalecia o desejo de vislumbrar o perfil daquelas mulheres bronzeadas pelo sol dos genes dos Guaicurus; a beleza como fruto imanente da terra.
No meio daquele desfile um gigante, a rir e a cumprimentar, vestindo impecavelmente um uniforme branco e um quepe da mesma cor, com frisos discretamente dourados em uma das mãos, sopesando um par de luvas. Conhecido de todos, ou melhor, familiar a todos, pois se tratavam por ti. Ele era o guarda-cívium, o guarda do cidadão. Nunca vira uma simbiose tão perfeita entre o que dava e o que recebia proteção.
O footing começava na esquina da Borges de Medeiros com a rua da Praia e seus personagens saíam do casario próximo, ao seu bel prazer. Nada pré concebido, não havia arranha-céus e nem árvores. O sol se esparramava na rua da Praia para iluminar o desfile. A sutileza do pensamento, aqui e ali, vislumbrava nos vestidos mais diáfanos um perfil mais ousado. Tudo era sonho, mas não é sonho o alimento da vida?
De repente um apito de trem de brinquedo, longo e incisivo, assanhava tudo quanto era homem e todos se apinhavam no café da esquina, o Café Central, a sorver um café tão quente, como se fora preparado num vulcão. Aqui e ali o nosso desfile sofria defecções: na outra parte em que a Borges de Medeiros divide a rua da Praia, lá estavam as casas do doce e do chá roubando-nos figurantes, e de maneira discreta a platéia tomava rumo. Ia bebericar nos seus bares preferidos e comentar o evento. O sol se equilibrava entre uma ou outra nuvem que vinha xeretear a agonia da tarde, ou quem sabe dar o pano de fundo onde se escondia a saudade do turbilhão de emoções que ficavam nadando a procura de corações desolados, pungidos por vezes pelo olhar furtivo de curiosidade e alheio de sentimentos.
Ao bucólico do anoitecer só nos faltavam lampiões, o sol se escondia por detrás da chaminé da Light e se banhava no estuário do Guaíba.
Um esplendor iluminava o céu: anoitecia.

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*José da Silva Albuquerque, médico veterinário, paraibano que adotou o Rio Grande. Observador, registrou suas impressões da cidade e do tempo em que viveu.

Um comentário:

Anônimo disse...

Uma bela crônica sobre a Porto Alegre antiga. Fico aguardando outras!
Marcelo Caetano